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Montezum: mulher perde movimentos após passeio

Novos casos revelam quatro condenações contra o Hopi Hari

Por Café com ProsaPublicado em Atualizado em
Montezum: mulher perde movimentos após passeio
Montezum: mulher perde movimentos após passeio

O caso de Júlia Rimoli Bossoni, de 28 anos, que perdeu os movimentos do lado esquerdo do corpo depois de andar na montanha-russa Montezum, ganhou um novo e preocupante capítulo. Um levantamento realizado pelo g1 encontrou quatro condenações do Hopi Hari, em um período de apenas 11 meses, por lesões sofridas por outros visitantes na mesma atração.

Os processos tratam de episódios ocorridos entre 2023 e 2024 e incluem fratura de clavícula, lesões nas costelas, contusão pulmonar e pneumotórax. As sentenças foram proferidas entre junho de 2025 e junho de 2026. Somadas, as indenizações fixadas em primeira instância chegam a R$ 35 mil por danos morais e R$ 1.544,71 por danos materiais.

O levantamento não significa que esses sejam os únicos processos envolvendo a Montezum. São os casos que o g1 conseguiu identificar e consultar nos registros públicos do Tribunal de Justiça de São Paulo.

As novas informações aumentam a pressão por respostas sobre a atração. Ao mesmo tempo, o canal Hapfun, especializado em parques de diversão, afirmou que já comentava havia anos sobre o desconforto provocado pela Montezum e que a experiência de andar no brinquedo era considerada muito negativa.

É importante fazer uma distinção: a manifestação do Hapfun sobre trepidação e desconforto não equivale a um laudo técnico apontando risco de acidente. Ainda assim, mostra que a agressividade do percurso não era uma reclamação isolada surgida somente depois do caso de Júlia.

Júlia Bossoni sofreu graves lesões neurológicas depois de andar na Montezum
Júlia Bossoni sofreu graves lesões neurológicas depois de andar na Montezum

Júlia visitou o Hopi Hari em 20 de abril de 2026, acompanhada do marido, João Pedro Bossoni Dionisio. O casal havia viajado de Londrina, no Paraná, até Vinhedo, no interior de São Paulo.

Os dois andaram na Montezum pela primeira vez durante a manhã e não relataram problemas. Cerca de cinco horas depois, por volta das 16h30, retornaram à atração utilizando um acesso que permitia repetir o passeio.

Imagens apresentadas pelo parque mostram Júlia consciente durante a subida inicial. Não foram divulgadas imagens de todo o trajeto. Aproximadamente dois minutos depois, quando o trem retornou à plataforma, ela estava desacordada e, segundo o marido, apresentava convulsões.

Funcionários se aproximaram e Júlia foi retirada em uma maca cerca de seis minutos depois. Ela recebeu os primeiros socorros no ambulatório do Hopi Hari e foi encaminhada à Santa Casa de Vinhedo.

Os exames identificaram hemorragia intracraniana e um grande edema cerebral. Júlia precisou passar por uma craniectomia descompressiva, cirurgia na qual uma parte do crânio é retirada temporariamente para aliviar a pressão provocada pelo inchaço do cérebro.

Ela permaneceu internada durante 57 dias e passou por sete cirurgias. Depois do ocorrido, perdeu os movimentos do braço e da perna do lado esquerdo do corpo, além de apresentar dificuldades na fala e alterações de memória. Júlia continua em reabilitação.

Um laudo médico apresentado pela família relaciona o traumatismo a um mecanismo de contragolpe durante o passeio. Movimentos bruscos de aceleração, desaceleração e rotação podem fazer com que o cérebro se desloque dentro do crânio, provocando o rompimento de vasos sanguíneos mesmo sem uma pancada direta na cabeça.

A conclusão médica apresentada pela família, entretanto, ainda não substitui a perícia criminal. A Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo continuam investigando as circunstâncias do caso e a eventual responsabilidade do parque.

O Ministério Público pediu uma inspeção técnica no carrinho utilizado por Júlia e na estrutura da Montezum. Também solicitou um exame de corpo de delito indireto, os prontuários médicos completos e esclarecimentos sobre o sistema de câmeras e fotografias da atração.

A defesa de Júlia afirma que é necessário catalogar todos os sensores e equipamentos de captação de imagens existentes no percurso. O parque declarou que as gravações disponíveis foram entregues em uma ação de produção antecipada de provas.

Uma dúvida, contudo, permanece: o trem e o assento utilizados pela jovem foram isolados imediatamente após o episódio? A atração voltou a funcionar depois que Júlia foi retirada. Não foi apresentado publicamente um relatório detalhando quais verificações técnicas foram realizadas antes da retomada da operação.

Câmeras mostram Júlia consciente na subida e desacordada quando o trem retorna à plataforma
Câmeras mostram Júlia consciente na subida e desacordada quando o trem retorna à plataforma

Os quatro processos encontrados pelo g1 mostram que os relatos de lesões não estão limitados aos casos mais antigos da Montezum.

Em julho de 2024, uma criança sofreu uma fratura na clavícula direita depois de passar pela atração. A ação relata que o carrinho teria “trepidado além do normal”. A criança ficou 14 dias afastada da escola.

O Hopi Hari afirmou no processo que a montanha-russa seguia as normas de segurança, possuía certificação internacional e não apresentou registro de mau funcionamento naquele dia. A Justiça fixou uma indenização de R$ 10 mil por danos morais. O parque recorreu, e o processo já passou pela segunda instância e entrou em fase de cumprimento de sentença.

Outro visitante sofreu uma lesão torácica ao bater a região das costelas na lateral do carrinho durante o trajeto. Testemunhas disseram que ele sentiu dor assim que saiu da atração, apresentou dificuldade para respirar e precisou de atendimento médico.

O visitante foi encaminhado à Santa Casa de Vinhedo, realizou exames e recebeu afastamento do trabalho por cinco dias. Uma testemunha afirmou que também bateu as costelas durante o passeio. Um funcionário do parque, ouvido no processo, declarou que algumas pessoas reclamavam de dores depois de utilizar a Montezum.

A Justiça estabeleceu uma indenização de R$ 5 mil por danos morais. O processo passou pela segunda instância e entrou em fase de cumprimento de sentença.

Em agosto de 2024, um homem que participava de um evento corporativo no parque sofreu uma fratura na sétima costela esquerda. A própria ficha do ambulatório do Hopi Hari registrou que ele sentiu dor logo após desembarcar.

Três dias depois, um exame de raio-X confirmou a fratura. Um laudo da Polícia Científica apontou que o visitante ficou incapacitado para suas atividades habituais por mais de 30 dias.

A sentença também considerou que houve falha no atendimento prestado pelo parque. Segundo a decisão, o homem recebeu apenas um analgésico e foi liberado sem fazer exame de imagem ou ser encaminhado a um hospital.

O Hopi Hari foi condenado a pagar R$ 15 mil por danos morais e R$ 390,14 por danos materiais. O parque recorreu, e a apelação ainda aguardava julgamento na última consulta divulgada pelo g1.

O caso mais grave entre os quatro ocorreu em agosto de 2023. Depois de andar na Montezum, um visitante apresentou fraturas da quinta à nona costelas, pneumotórax e contusão pulmonar.

O pneumotórax ocorre quando existe a presença de ar no espaço entre o pulmão e a parede do tórax, podendo provocar o colapso parcial ou total do pulmão e dificuldade para respirar.

No processo, o Hopi Hari afirmou que a atração operava normalmente e contestou a relação entre o brinquedo e as lesões. A Justiça fixou R$ 5 mil por danos morais e R$ 1.154,57 por danos materiais. Não houve recurso, e a decisão tornou-se definitiva em julho de 2026.

Montezum, montanha-russa do Hopi Hari investigada pelo MPSP
Montezum, montanha-russa do Hopi Hari investigada pelo MPSP

Além dos quatro processos mais recentes, a Montezum já havia sido relacionada a outros casos graves.

Em 2014, Márcio Machado ficou tetraplégico depois de andar na atração. Ele possuía espondilite anquilosante, mas uma perícia judicial divulgada em 2017 concluiu que a tetraplegia teria sido provocada pelo efeito chicote do brinquedo, e não pela evolução da doença preexistente. Márcio morreu em 2023 em consequência de complicações de uma infecção urinária.

Em 2018, a professora Nathalia Assenjo Motta sofreu um deslocamento de vértebras depois de utilizar a Montezum. Segundo seu relato, o pescoço fez um movimento de chicote durante uma sequência de descida, subida e curva.

Nathalia precisou colocar 12 pinos e duas hastes na região cervical. Ela recuperou os movimentos do corpo três dias depois, mas permaneceu com mobilidade reduzida no pescoço e necessidade de fisioterapia, hidroterapia e medicamentos. O Hopi Hari pagou uma indenização por danos materiais.

Em dezembro de 2021, uma barra de segurança se soltou na mão de um passageiro durante a subida inicial da atração. O visitante fez um sinal para a equipe, o trem foi interrompido e todos foram retirados. Ninguém ficou ferido, e a Montezum permaneceu fechada naquele dia para inspeção.

Também foram localizadas cerca de 40 reclamações publicadas por consumidores nos últimos dois anos. Os relatos citam dores no pescoço, problemas no joelho, dores no peito, fraturas nas costelas, trepidação excessiva e sensação de falta de apoio para a região cervical.

Em uma das reclamações mencionadas pela imprensa, uma família afirmou que o filho de nove anos ficou com dor no peito depois de andar no brinquedo. Outra visitante declarou que teve a sensação de “sair voando” durante o trajeto por não encontrar apoio adequado para o pescoço.

Essas manifestações não possuem o mesmo peso jurídico de uma condenação ou de um laudo pericial. No entanto, formam um conjunto de queixas que precisa ser considerado pelas autoridades responsáveis pela investigação.

O Hapfun, canal especializado que acompanha parques e atrações brasileiras, também se manifestou depois da repercussão do caso. O portal afirmou que, havia anos, classificava a Montezum como uma atração muito desconfortável.

O relato ganha relevância porque não parte de um visitante ocasional, mas de um veículo especializado no setor, que já produziu vídeos, realizou visitas e divulgou conteúdos sobre o próprio Hopi Hari. Ainda assim, o alerta sobre desconforto deve ser compreendido como uma avaliação da experiência, e não como uma prova técnica de falha estrutural.

O Hopi Hari afirma que a Montezum possui certificação internacional emitida pelo grupo TÜV Nord, segue a norma ABNT NBR 15926:2023 e passa por inspeções periódicas.

Segundo o parque, a manutenção preventiva diária é realizada antes da abertura e inclui de cinco a seis horas de trabalho mecânico, de uma a duas horas de inspeção elétrica e de três a quatro horas de verificação da estrutura de madeira.

Nos dias em que o parque permanece fechado, seriam realizadas manutenções semanais mais extensas. O estabelecimento também menciona procedimentos mensais e revisões dos trens depois de 1.800 a 2.000 horas de operação ou a cada dois anos.

As inspeções, conforme o parque, abrangem a estrutura de madeira, os trilhos, as fixações, as travas de segurança, os cintos, os sensores fotoelétricos, os painéis elétricos e os sistemas de frenagem.

O problema é que as informações divulgadas descrevem a rotina geral da atração. Não foram apresentados publicamente os registros completos e datados das manutenções realizadas no trem e no assento usados por Júlia imediatamente antes do episódio de 20 de abril.

O parque informou que aproximadamente 470 mil pessoas passaram pela Montezum em 2026 até a divulgação do caso. Também classificou as cerca de 40 reclamações encontradas na internet como um número estatisticamente pequeno diante de aproximadamente 1,2 milhão de visitantes no período analisado.

Sobre as quatro condenações encontradas pelo g1, o Hopi Hari afirmou que a atração segue rigorosos protocolos de segurança e que os casos representam “situações pontuais”, não uma falha sistêmica. O parque também argumenta que determinadas ocorrências podem envolver condições de saúde preexistentes ou descumprimento das restrições informadas aos visitantes.

Essa alegação, entretanto, deve ser analisada individualmente. Nos quatro processos identificados, houve decisões judiciais reconhecendo o direito dos visitantes à indenização, ainda que algumas delas tenham sido contestadas pelo parque e não estejam definitivamente encerradas.

O Hopi Hari também cita um parecer emitido pelo Ministério Público em agosto de 2026, após outro procedimento envolvendo uma visitante que sentiu dores no pescoço. Naquela apuração, não foi identificado risco coletivo, falha sistêmica ou defeito de projeto.

O parecer tratou da segurança coletiva da atração e considerou regulares os relatórios operacionais apresentados, inclusive os registros do dia 17 de julho de 2026. Isso não determina, porém, o que aconteceu com Júlia em abril. A investigação do caso dela é independente e continua em andamento.

O parque afirma que a montanha-russa segue normas nacionais e possui certificação internacional
O parque afirma que a montanha-russa segue normas nacionais e possui certificação internacional

Na nota sobre Júlia, o Hopi Hari declarou que ela recebeu atendimento imediato, foi levada inicialmente ao ambulatório do parque e depois encaminhada à Santa Casa de Vinhedo. A empresa afirma que acompanhou a internação, manteve contato com os familiares, custeou despesas durante a permanência da família na cidade e disponibilizou um seguro.

A família apresenta uma versão diferente. A mãe de Júlia afirma que o parque pagou hospedagem e alimentação durante os 57 dias de internação em Vinhedo, além do transporte de ambulância para Londrina, mas interrompeu o suporte após a transferência.

Segundo a advogada da família, representantes do parque teriam prometido uma ajuda semanal para despesas com fraldas, medicamentos e outros recursos, mas deixaram de responder. A defesa afirma ainda que nenhum seguro foi efetivamente disponibilizado para custear o tratamento ou reparar os danos sofridos por Júlia.

A família estima já ter gastado aproximadamente R$ 70 mil com especialistas e tratamentos. O Hopi Hari contesta a acusação de abandono e sustenta que seu departamento jurídico continua à disposição dos familiares.

Portanto, existe uma divergência direta: o parque diz que ofereceu suporte e seguro; a família afirma que a assistência terminou e que não recebeu indenização securitária para o tratamento.

A Montezum foi inaugurada em 1999 e é considerada a maior montanha-russa de madeira da América Latina. Possui aproximadamente 42 metros de altura, 1.030 metros de extensão e pode atingir 103 quilômetros por hora. O percurso dura cerca de 58 segundos.

Por ser uma montanha-russa de madeira, a atração apresenta vibrações características desse tipo de construção. Isso, entretanto, não encerra o debate. Existe uma diferença entre a trepidação esperada de um brinquedo radical e movimentos capazes de provocar lesões.

O Hopi Hari já havia anunciado uma reforma da Montezum para o fim de 2026. A intenção de modernizar a atração, inclusive com informações sobre uma possível transformação em montanha-russa híbrida, foi divulgada antes da repercussão nacional do caso de Júlia.

Diante das novas condenações, a reforma também gera questionamentos: quais problemas técnicos ou de conforto motivaram a mudança? Os trens, os assentos e os sistemas de contenção serão substituídos? O projeto reduzirá os impactos e a trepidação? Por que essas alterações não foram realizadas antes?

O caso não permite afirmar, antes da conclusão da perícia, que uma falha mecânica ou estrutural tenha causado as lesões de Júlia. Mas os fatos conhecidos impedem que o episódio seja tratado como um simples mal-estar isolado.

Uma jovem entrou consciente na atração e retornou desacordada e em convulsão. Ela passou por sete cirurgias e perdeu os movimentos de um lado do corpo. Existem casos anteriores de tetraplegia e lesão cervical, quatro condenações recentes por diferentes ferimentos, dezenas de reclamações e críticas antigas sobre o desconforto do percurso.

Certificações, placas de advertência e números de visitantes são importantes, mas não substituem a análise dos episódios concretos. A existência de milhares de viagens sem ocorrência grave também não elimina o dever de investigar cada vítima e identificar possíveis padrões.

O Hopi Hari precisa tornar públicos os registros de manutenção imediatamente anteriores ao caso de Júlia, explicar por que a Montezum voltou a funcionar depois que ela saiu desacordada e informar se o trem utilizado foi preservado para perícia.

Também cabe às autoridades determinar se as lesões reconhecidas pela Justiça têm alguma relação entre si e se as características do percurso, dos assentos ou dos sistemas de contenção podem oferecer riscos superiores aos informados aos visitantes.

Enquanto essas respostas não forem apresentadas e a perícia não for concluída, permanece uma pergunta que vai além do caso individual de Júlia: quantas ocorrências são necessárias para que desconfortos, reclamações e lesões deixem de ser tratados como casos isolados?

Fontes consultadas: g1 — quatro condenações relacionadas à Montezum, Jornal da EPTV/Globoplay, Fantástico/G1, CNN Brasil, Exame — posicionamento integral do Hopi Hari, UOL — assistência financeira à família, Veja São Paulo e Hapfun.

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